A METODOLOGIA
No currículo integral-restaurador a metodologia é compreendida como o estudo dos métodos e procedimentos investigativos dos diferentes domínios de conhecimento e da pesquisa e está embasada na filosofia adventista de educação com a finalidade de promover o alcance dos objetivos maiores que são restaurar a relação entre o homem e Deus, o homem e a natureza e dele com os outros.
A metodologia, neste documento, se faz ver a partir dos princípios metodológicos, os quais são diretrizes amplas de sustentação curricular para a seleção dos métodos e meios de ensino utilizados na sala de aulas e demais espaços educativos conforme apresentado na ilustração a seguir.
Ilustração 5: Relação entre filosofia e metodologia no currículo integral-restaurador
5.5.1 Princípios Metodológicos
Os seguintes princípios metodológicos servem como base teórica comum para as práticas metodológicas do currículo integral-restaurador.
a) Centralidade da Bíblia - todas as atividades educativas partem de uma perspectiva bíblico-cristã. O objetivo é que os estudantes internalizem voluntariamente uma visão da vida orientada para o serviço, motivada pelo amor e voltada para o reino eterno de Deus.
b) Integração fé/ensino - dentre os princípios metodológicos apresentados, talvez o que demande maior necessidade de reflexão seja a integração fé/ensino. Tal concepção é um chamamento para que todo o espaço escolar seja permeado pela atmosfera do Céu, compreendendo que na educação adventista não há espaço para tratar apenas das coisas
terrenas e que mesmo ao tratá-las o fundamento será a visão bíblica. Isso porque quando se elege a Deus como fonte do verdadeiro conhecimento, Ciência e Religião não são antagônicas. Todo esforço humano no rumo das descoberta científicas é visto como atrelado ao poder criador de Deus, do qual o homem conserva a característica da individualidade. Por mais que este alcance degraus destacados no campo do conhecimento, sua diligência e capacidade intelectual carecem da ajuda da sabedoria infinita, tendo em vista que a mente humana é finita. Além disso, para além do que o homem é capaz de penetrar e descobrir existe o Deus do infinito.
As descobertas científicas são mutáveis, não são verdades absolutas, porque além de se pautarem pelo intelecto humano, regido pela finitude, estão em constante expansão. Só em Deus está a verdade absoluta. Só Ele pode servir de referencial às descobertas do intelecto humano. Ele não pode ser mensurado como as descobertas científicas, porque está acima do natural.
Em vez de limitar o seu estudo ao que os homens têm dito ou escrito, sejam os estudantes encaminhados às fontes da verdade, aos vastos campos abertos à pesquisa na Natureza e na Revelação. Que contemplem os grandes fatos do dever e do destino, e a mente expandir-se-á. Em vez de pusilânimes educados, as instituições de ensino poderão produzir homens fortes para pensar e agir, homens que sejam senhores e não escravos das circunstâncias, homens que possuam amplidão de espírito, clareza de pensamento, e coragem nas suas convicções. (WHITE, ED, p. 17-8).
A ciência está sempre a descobrir novas maravilhas; mas nada traz de suas pesquisas que, corretamente compreendido, esteja em conflito com a revelação divina. O livro da Natureza e a palavra escrita lançam luz um sobre o outro. Familiarizam-nos com Deus, ensinando-nos algo das leis por cujo meio Ele opera. (WHITE, ED., p. 128).
Ao integrar fé e ensino, educador e educandos são levados a refletir sobre todos os aspectos da realidade, numa perspectiva cristocêntrica. A integração fé e ensino não pode ser fruto do acaso; ao contrário, deve ser um processo intencional e sistemático. O objetivo é levar os alunos a internalizar voluntariamente uma visão da vida orientada para o serviço, motivada pelo amor e voltada para o reino eterno de Deus. 
A constante pergunta do professor tem sido: como fazer a integração fé/ensino de uma maneira legítima? Em primeiro lugar é preciso compreender que integração fé/ensino é a explicitação prática do que significa ser cristão e isso é visto através do testemunho pessoal através da linguagem, dos hábitos, do vestuário, da alimentação, das opções de lazer, etc. Em segundo lugar, integrar fé/ensino é resultado da cosmovisão bíblica pessoal do professor a respeito da origem, queda e restauração do homem. Se um professor não crê na Bíblia como autorevelação de Deus para o ser humano com a finalidade da salvação em Cristo Jesus possivelmente não terá condições de integrar fé/ensino.
Muito mais do que registrar num plano de curso ou disciplina exemplos, histórias, versos bíblicos, a integração fé/ensino se constitui em uma declaração viva da fé que é professada pelos agentes educativos na escola adventista. Algumas proposições podem orientar coordenadores pedagógicos e professores na reflexão sobre a integração fé/ensino. Eis algumas:
- Como minha área de conhecimento pode contribuir para encaminhar os estudantes a Jesus?
- O que significa ensinar sobre o caráter de Cristo?
- Como um evento, fato, notícia, texto ilustra a condição humana em relação ao plano de Deus para a vida do ser humano?
- Os estudantes e pais vêem na escola e em mim o reflexo do caráter de Deus?
- O clima da sala de aula permite visualizar a graça e a presença de Deus?
O cotidiano da sala de aula permite ainda a prática de algumas atividades de cunho espiritual em que o estudante seja envolvido no clima da integração fé/ensino, tais como: Realizar oração intercessória por alunos, familiares, professores e funcionários; Planejar e executar semanas especiais com temas espirituais; Compartilhar textos bíblicos com as famílias e pessoas da comunidade que estejam necessitando de auxílio especial; Dar estudos bíblicos e distribuir folhetos com mensagens bíblicas de saúde que promovam a qualidade de vida; Promover campanhas de cunho social e espiritual; Fazer uma maratona de leitura da Bíblia com a turma; Estimular a criação de uma agenda pessoal e coletiva de oração. O que não se deve perder de vista é o plano de Deus para todos os que fazem parte da educação adventista.
c) Progressão na abordagem e aprofundamento do conteúdo - partir do simples para o complexo - a mente humana apropria-se de conhecimento de forma progressiva ou das noções gerais para as os detalhes ou juntando as peças para compreensão do todo. O ensino deve contemplar a necessidade de fornecer primeiramente o "leite" até que os alunos
possam digerir alimento mais sólido, especialmente quando se trata das verdades do evangelho. Jesus ensinou aos discípulos, mas declarou que muitas coisas eles ainda não estavam preparados para suportar. Por isso que, simbolicamente, o crescimento cristão no conhecimento e amadurecimento é comparado com uma escada e como a luz da aurora (II PE 1:1-8; PV. 4:15).
Na educação, o trabalho de progredir deve iniciar-se no degrau mais baixo da escada. As matérias comuns devem ser ensinadas de maneira completa e com oração. Muitos que acham ter concluído sua educação são deficientes na ortografia e escrita, e tampouco lêem ou falam corretamente. Não poucos que estudam os clássicos ou outros ramos mais elevados do saber, e que alcançam determinadas normas, fracassam finalmente porque negligenciaram fazer trabalho cabal nos ramos comuns. Nunca obtiveram bom conhecimento da língua materna. Necessitam voltar e começar a subir desde o primeiro degrau da escada. (WHITE, CPPE, p. 215).
d) Clareza e objetividade no processo de ensino - o professor precisa saber claramente aonde quer chegar e fazê-lo sem perder o rumo. Além disso, o estudante precisa entender o caminho que está seguindo e o conteúdo que está sendo ensinado.
Todo professor deve cuidar para que seu trabalho seja orientado a resultados definidos. Antes de tentar ensinar uma matéria, deve ter em sua mente um plano, e saber precisamente o que deseja conseguir. Não deve ficar satisfeito com a apresentação de qualquer assunto antes que o estudante compreenda os princípios nele envolvidos, perceba a sua verdade e esteja apto a referir claramente o que aprendeu. (WHITE, ED, p. 143)
e) Relação teoria-prática - teoria e prática não são, na concepção adventista de educação, duas fases, mas elementos de um círculo harmonioso. Aprende-se fazendo, faz-se aprendendo. O professor tem em mente a importância da aplicabilidade dos temas estudados em sala de aula. O conhecimento teórico sem o conhecimento prático pouco contribui para o êxito do estudante. O trabalho prático desperta observação minuciosa e pensamento independente. Não é produtivo se deter no ensino de conceitos quando estes não estão ligados às questões cotidianas, como comunicar-se com fluência, ler e escrever com clareza e coesão, saber preparar alimentos saudáveis, fazer com precisão as contas de seus próprios gastos. Nesse sentido, é oportuno utilizar esquemas de ensino que incluam a aplicação dos conhecimentos, permitindo vivências e experiências dentro e fora da sala de aula.
f) Coerência entre objetivos, conteúdos, procedimentos e avaliação - tudo o que se ensina deve levar à realização do objetivo proposto pela disciplina. Por isso, os procedimentos precisam ser coerentes e adequados aos conteúdos e objetivos. Assim fazia Jesus: utilizava o conteúdo (temática, episódio) e os procedimentos (parábola, diálogo, discurso) de acordo com Seus objetivos (informar, confortar, motivar), por exemplo.
g) Consideração pelos conhecimentos adquiridos e as experiências vividas - assim como Jesus ensinava as pessoas a partir de elementos conhecidos e questionava-os sobre o que conheciam, o professor deve considerar o conhecimento do estudante antes de iniciar um novo tema e então construí-lo a partir dele.
h) Conhecimento do estudante e de sua realidade - é imprescindível que o professor conheça a realidade do educando no seu contexto sócio-cultural e como se processa o seu desenvolvimento físico, espiritual, emocional e intelectual. Ao introduzir qualquer tema ou assunto, precisa obter informações relevantes ao contexto do educando, propondo situações, problemas e desafios que permitam a elaboração de hipóteses, a realização de experimentos e a construção de analogias, relacionando as partes ao todo. Tal postura contribuirá para o ânimo do educando em sua trajetória estudantil e para a elaboração e compreensão de questões mais amplas.
Jesus procurava um caminho para cada coração, usando ilustrações varias, não só expunha a verdade em seus diversos aspectos, mas apelava também para os diferentes ouvintes. Despertava-lhes o interesse pelos quadros tirados do ambiente de sua vida diária (WHITE, PJ, p.21).
i) Estímulo ao espírito de investigação, reflexão e criatividade - o estudante possui naturalmente um espírito inquiridor a respeito da vida e do funcionamento do mundo. Cabe ao professor estimulá-lo e orientá-lo a procurar respostas para suas indagações, através de instrumentos como a pesquisa, e despertar o espírito investigativo através de reflexões a respeito das diversas situações da vida humana.
A palavra "pesquisa" aqui deve ser entendida como um instrumento que propicia a construção do conhecimento e não como uma mera consulta de dados prontos e acabados. Existem etapas claras a serem seguidas quando o assunto é a pesquisa. Deseja-se ressaltar aqui o sentido de ter claro o objetivo e as condições que o estudante terá ao realizá-la, assim como um roteiro prévio, temas e procedimentos diversificados.
Os professores devem induzir os estudantes a pensar, e a entender claramente a verdade por si mesmos. Não basta ao professor explicar, ou ao estudante crer; cumpre despertar o espírito de investigação, e o estudante ser atraído a enunciar a verdade em sua própria linguagem, tornando assim evidente que lhe vê a força e faz a aplicação (WHITE,CSE, p.140).
O professor deve primar por uma investigação que estimule o raciocínio, a reflexão e a criatividade. Assim, não colocará a mente do estudante sob seu controle, mas contribuirá para o desenvolvimento da autonomia intelectual. Nesse aspecto pode-se utilizar, também, os projetos e a resolução de problemas como procedimentos metodológicos, realizando investigações conjuntas com os estudantes, realizando feiras de ciências, exposição de trabalhos, estudos de caso, pesquisa de campo e outros, etc.
j) Consolidação dos conhecimentos, tornando-os permanentes - isso se dá através do desenvolvimento de hábitos e habilidades. O professor precisa prover atividades que possibilitem uma aprendizagem com sentido e significado para o estudante. Isso implica em retomar os pontos importantes do conteúdo trabalhado, relacionar os conteúdos entre si e para além da sala de aula, realizar atividades práticas juntamente com os ensinos teóricos para que as habilidades sejam desenvolvidas e hábitos saudáveis sejam formados pelo estudante.
k) Respeito às diferenças individuais - Em Seu relacionamento com os discípulos e com a população em geral, Jesus
respeitava a individualidade e valorizava as pessoas. O respeito à individualidade não deve negar a importância do grupo. É responsabilidade docente conhecer as características singulares do estudante, tais como seu estilo de aprendizagem, seus talentos, dons ou habilidades, trabalhando para promover seu desenvolvimento.
Em todo verdadeiro ensino o elemento pessoal é essencial. Cristo, em Seu ensino, tratava com os homens individualmente. Foi pelo trato e convívio pessoal que Ele preparou os doze [discípulos]. Era em particular, e muitas vezes a um único ouvinte, que dava Suas preciosas instruções. [...] O mesmo interesse pessoal, a mesma atenção para com o desenvolvimento individual são necessários na obra educativa hoje. Muitos jovens que aparentemente nada prometem, são ricamente dotados de talentos que não aplicam a uso algum. [...] O verdadeiro educador, conservando em vista aquilo que seus discípulos podem tornar-se, reconhecerá o valor do material com que trabalha. Terá um interesse pessoal em cada um de seus estudantes, e procurará desenvolver todas as suas faculdades. Por mais imperfeitos que sejam eles, acoroçoará [ou incentivará] todo o esforço por conformar-se com os princípios retos (WHITE,ED, p.231-232).
k) Consideração aos valores bíblico-cristãos - a axiologia permeia o currículo escolar e influencia seus agentes a um viver coerente com os princípios básicos da ética cristã e da valorização do educando como indivíduo e como membro de uma sociedade, com responsabilidades e direitos em relação ao meio ambiente, à vida e à família.
A verdadeira educação não desconhece o valor dos conhecimentos científicos ou aquisições literárias, mas acima da instrução aprecia a capacidade, acima da capacidade a bondade, e acima das aquisições intelectuais o caráter. O mundo não necessita tanto de homens de grande intelecto, como de nobre caráter. Necessita de homens cuja habilidade seja dirigida por princípios firmes (WHITE, ED, p. 225).
Sabe-se que dos princípios, derivam-se os valores, dos valores as atitudes e das atitudes a conduta. Assim, ao trabalhar com princípios bíblico-cristãos os professores poderão utilizar procedimentos metodológicos que auxiliem o estudante a identificar, apreciar e valorar tais princípios.
l) Espírito cooperativo - a Bíblia reforça a importância da convivência social. Portanto, o espaço escolar deve proporcionar relações de cooperação como excelente oportunidade para o desenvolvimento contínuo do conhecimento e da formação do caráter. Trabalhos em grupo, envolvimento em projetos de auxílio à comunidade e participação ativa dos estudantes no apoio aos seus pares são algumas das alternativas aplicáveis a este princípio.
A cooperação deve ser o espírito da sala de aulas, a lei de sua vida. O professor que adquire a cooperação de seus discípulos consegue um auxílio inapreciável [ou imprescindível] na manutenção da ordem [..] Que os mais velhos ajudem aos mais novos, os fortes ao fracos; e, quanto possível, seja cada um chamado a fazer algo em que se distinga. Isso fomentará o respeito próprio e o desejo de ser útil. (WHITE,ED, p.285).
Quando um estudante auxilia o outro ele está ajudando ao próprio professor e freqüentemente uma mente que é aparentemente sólida irá captar idéias mais rapidamente de um amigo do que do professor. Esta é a cooperação que Cristo recomenda. (WHITE, CSE, p. 228).
m) Interdisciplinaridade - a inter-relação entre os conteúdos nas diferentes disciplinas constitui-se o foco da interdisciplinaridade. A educação adventista não concebe um modelo educativo que fragmente a relação que a própria vida faz de seus conteúdos no dia a dia, oferecendo uma relação epistemológica entre as disciplinas para que os diversos saberes se construam de maneira harmônica.
As verdades que irão perfazer o grande todo, devem ser pesquisadas e reunidas. "Um pouco aqui, um pouco ali" (Is 28:10) [...] pesquisando as várias partes e estudando as relações entre elas existentes, são chamadas a uma intensa atividade as mais altas faculdades da mente humana. Ninguém poderá empenhar-se em tal estudo, sem desenvolver poder mental. (WHITE,CSE,123-4).
Tais princípios contribuem para que os professores do Sistema Educacional Adventista elejam os melhores caminhos metodológicos para que seu trabalho seja eficiente e contribua com o permanente desenvolvimento do estudante.
Fonte - Pedagogia Adventista , CPB , 2008.